O que não dizer... quando se quer dizer.
nelsonss @ 11:15
Estava revendo um dia desses alguns capítulos da obra literária de James Hunter. “O Monge e o Executivo” nos situa fora da agitação da empresa, num retiro espiritual, para refletirmos sobre aspectos de liderança e de gestão que não estamos aplicando corretamente com as equipes e nas organizações. É quase buscar a Deus para nos dar respostas. No caso, tratava-se de Leonard Hoffman, grande executivo que resolveu se dedicar exclusivamente à vida espiritual, fazendo o papel de líder em outro segmento.
De qualquer forma, era domingo. E na noite anterior havia assistido a uma peça hilariante de dois ótimos comediantes num teatro do Leblon. Por isso, lembrei-me de uma piada corporativa que tinha ouvido num curso, há muito tempo:
Num convento, estavam dois seminaristas. Um era brasileiro, esperto – nem ele sabia o que estava fazendo ali – e o outro, de nacionalidade indefinida (afinal, não podemos nos descuidar da ética...). Ambos fumantes.
Embora o padre superior tivesse expressado a proibição quanto fumar nos horários das orações, os dois estavam determinados quanto a não atenderem essa norma.
_ Uma questão de saúde! – alegavam.
_ A regra é clara. – reforçava o sacerdote – Não é permitido fumar na casa de Deus.
O seminarista de nacionalidade indefinida foi direto ao assunto, com toda a clareza e discurso afiado, recheado com palavras bem arrumadas. O padre negou o pedido, além de imputar-lhe muitas penitências. Percebendo o cenário sombrio, o seminarista brasileiro resolveu se calar e agir mais adiante. Procurou informações sobre o padre, do por que estava ali, como foi sua vida antes de usar a batina e algumas preferências. De futebol, não era flamenguista como ele. Buscou o santo preferido e, descobrindo, tratou de estudar os fatos canônicos. Graças a isso, estabeleceu com o padre um clima positivo. Aguardava o momento oportuno de fazer, dessa vez, seu pedido.
_ Padre, admiro muito a vida dos santos. Especialmente a de São Jerônimo. – respirou fundo e desabafou – Mas sinto-me muito distante desse ideal.
_ Todos podemos ascender à condição santificada de homens puros...
_ Venho me esforçando, mas tenho um pequeno problema que ainda não consegui solucionar.
_ Pode me contar, meu filho?
_ De vez em quando, ainda me encontro fumando...
_ É um problema... – avaliou o padre superior, atento.
_ E – continuou o seminarista - nesse momento, sinto uma vontade incontrolável de rezar, mas logo vem um sentimento de culpa.
_ Se Deus quer manter contato conosco, quem somos nós para controlarmos essa vontade divina? – tranqüilizou o padre.
_ Será que nesses momentos poderia rezar? – confirmou o seminarista, diante da resposta positiva do superior, recomendando-lhe que rezasse também para interromper esse vício.
O curso tratava de negociação e a história havia sido extraída do livro “Negociação Total: Encontrando Soluções, Vencendo Resistências e Obtendo Resultados”, de José Augusto Wanderley (SP: Gente, 1998). O que se queria exemplificar era que toda negociação significa alcançar objetivos. E que toda conquista tem seu preço; a não ser que se esteja esperando uma doação ou então um milagre.
Fica claro para nós que a negociação é uma tentativa de tratarmos determinado conflito de interesses entre duas ou mais partes. O padre superior tinha o interesse legítimo de salvaguardar o ambiente de emissões nocivas, mesmo sem conhecer a lei federal nº. 9294/96, que proíbe fumar em ambientes fechados de uso coletivo. Já os dois seminaristas tinham o interesse legítimo de garantir prazer e, mais do que isso, sentirem-se bem, pois se tratava de “uma questão de saúde”, como bem o disseram.
A grande sacada nesse processo gerencial, que é a negociação, é identificar entre as forças impulsionadoras e as restritivas, os interesses comuns. É fechar acordos nessa zona de tranqüilidade e, à medida que se identificam outros interesses comuns, ir ampliando o escopo desses acordos.
A administração de negócios e empresas teve sua origem nas organizações militares e religiosas, notadamente por ocasião das Cruzadas. Com certeza os padres têm muito a ensinar. Que o diga John Daily, personagem que busca o mosteiro. É um homem de negócios bem-sucedido que percebe, de repente, que está fracassando como chefe, marido e pai.
_ Sim, os padres têm muito a ensinar, com certeza. Mas não sobre fumar, é claro!

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