GPP – Capítulo 4: Noite em Sampa.
nelsonss @ 00:26
O cansaço era grande. Despojado no sofá do quarto de hotel, Luciano tentava organizar o pensamento acerca dos fatos e dados do dia. Era ainda o primeiro e quase uma vida passava diante da sua tela mental. Esboçou um movimento para olhar pela fresta da janela a noite confusa que São Paulo proporciona aos seus visitantes. Queria saber se as estrelas ainda estavam no céu ou se as nuvens já as haviam escondido, mas o esforço seria grande. Afinal, um dia inteiro de palestras, momentos agradáveis com velhos conhecidos e até a peça do Suassuna sobre um santo de barro e uma porca cheia de dinheiro que não valia mais nada.
Finalmente reunira forças para tirar a roupa e lançar-se sob a torrente de água quente num banheiro todo revestido de granito em tons variados de preto e branco, dispondo de espelhos em grande parte das paredes. Enquanto o chuveiro ia renovando suas forças, observava-se no reflexo nebuloso do vapor d'água. Seu corpo não era mais como aos vinte anos, no auge de sua juventude. Os anos, apesar de tudo, foram bons para ele. Ao contrário de seus familiares, sua determinação em se aperfeiçoar, capacitando-se para desafios cada vez maiores, levou-no aonde se encontra atualmente, ou seja, como assistente de uma grande executiva. Reconhecido e bem remunerado, encontrava-se em condições de auxiliar aqueles que buscavam seu apoio.

A presença da companheira também tinha sido fundamental e, embora mal lhes sobrasse tempo, seus momentos juntos eram de mais qualidade do que nos tempos difíceis. Luciano estava sempre em viagens de negócios, cruzando principalmente os céus do Brasil, de norte ao sul, ou trabalhando em seu gabinete até avançadas horas da noite. No entanto, não abria mão do café da manhã com todos juntos: além da esposa, que também trabalhava, a filha adolescente e o primogênito universitário. Aos fins de semana e sempre que podiam, curtiam passeios bastante renovadores de votos de felicidade mútua.
É verdade que essa relação havia sido abalada por desconfianças sem propósito, mas infelizmente cheia de indícios misteriosos. Primeiro, foram telefonemas anônimos no celular da esposa, procurando-o e sem deixar forma de retorno. Uma vez ainda se compreende, mas três vezes em menos de um mês... Sophia não agüentou a pressão e descarregou numa quarta-feira de compras onde Luciano precisou ficar até à noite em reunião de planejamento de um grande evento para a empresa. Cristina, sua chefe, contava com sua experiência em gerenciamento de projetos e só restou ao nosso amigo telefonar avisando que, dessa vez, a esposa fizesse compras sozinha.
_ Dessa vez?... Já estou ficando acostumada! - desabafou Sophia seguida do som repetitivo de linha interrompida.
Depois, comentários maldosos de amigas e parentes. Tudo inveja e maledicências... Todo aquele que aspira alçar profissionalmente outros patamares sabe que sacrifícios precisam ser feitos. No entanto, é necessária muita sabedoria para administrar essas crises.
O som do rádio-relógio disparava com a renovadora música "You raise me up", de Josh Groban, despertou Luciano de seus pensamentos nostálgicos e de como a vida tinha sido boa para ele e, ao mesmo tempo, sentia que não conseguia compartilhar esse sucesso com as pessoas que mais amava. A letra dizia sobre "você me faz levantar, me torna forte...” E, como um salmo, o fez forte para terminar o banho e jogar-se entre os cobertores. "A necessidade de conforto não é para os fortes, mas sim para os mortos e cansados.", pensou ele. Virou-se para dormir. Tinha sido um longo dia e o seguinte estava por vir, aguardando-o.
(continua na próxima semana)

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